A bandeira verde para a temporada de 2026 da NASCAR Cup Series está prestes a ser agitada, com o início marcado para o dia 1º de fevereiro no Cook Out Clash, no lendário Bowman-Gray Stadium. Com a nova temporada batendo à porta, surge a oportunidade inevitável de arriscar alguns palpites, ainda que as previsões anteriores tenham passado longe da realidade — errei todas as três apostas no ano passado, então encare as próximas linhas com cautela. No entanto, é um novo campeonato, e a empolgação permite traçar alguns cenários iniciais para o que vem por aí.
A 23XI Racing e a Quebra de Hegemonia
Pode parecer uma aposta segura, mas é um ponto de partida sólido: a consistência será, mais uma vez, o fiel da balança nas dez corridas finais, especialmente com o anúncio do retorno do formato “The Chase” e o aumento da pontuação para vitórias. Na temporada passada, vimos a Hendrick Motorsports e a Joe Gibbs Racing dominarem, colocando todos os seus pilotos no top 16 em média de chegada. O “Big Three” formado por HMS, JGR e Penske parece inabalável, mas existe espaço para uma ruptura vinda da garagem da 23XI Racing.
Tyler Reddick, com sua regularidade, e Bubba Wallace, que mostrou uma evolução notável na reta final do último ano, surgem como fortes candidatos a furar essa bolha e garantir uma vaga entre os quatro finalistas. Já em relação a Riley Herbst, a situação é bem mais delicada. Após uma temporada de estreia abismal, é difícil vislumbrar um salto de desempenho significativo que o coloque nessa briga.
A Força da RFK e o Fator Keselowski
Olhando para a RFK Racing, a equipe contou com alguns dos pilotos mais constantes do grid no último ano. Se o formato do campeonato fosse diferente, Chris Buescher e Ryan Preece provavelmente teriam terminado no top 10, baseando-se apenas na média de posições finais. A expectativa é que a RFK coloque pelo menos dois carros no Chase, mas a grande incógnita atende pelo nome de Brad Keselowski. O dono e piloto da equipe terminou a temporada em alta, mas a recente lesão na perna traz incertezas sobre o seu retorno ao auge físico. Ele é, sem dúvida, o “coringa” desta equação.
Shane van Gisbergen e o Desafio dos Ovais
O neozelandês Shane van Gisbergen dominou os circuitos mistos no ano passado, vencendo quase tudo, exceto em COTA, mas enfrentou dificuldades naturais nos ovais. Contudo, uma análise mais atenta revela uma curva de aprendizado ascendente: após maio, ele teve apenas cinco resultados fora do top 20, incluindo um top 15 na exaustiva Coke 600. Minha previsão, talvez ousada, é que SVG finalmente estacionará seu carro no Victory Lane em um oval antes do fim de 2026. Seja por estratégia, sorte ou pneus velhos, ele é um nome para se observar de perto.
O Fim de Ciclos e Aposentadorias
Ainda no campo das previsões, Denny Hamlin não deve apresentar uma queda brusca de rendimento, mantendo-se na briga por vitórias e talvez até pelo título. No entanto, acredito que ele anunciará planos de se aposentar das corridas em tempo integral ao final de 2027, após refletir sobre o desgaste da temporada. Claro, um título inédito poderia mudar completamente essa narrativa. Já Brad Keselowski, que começa 2026 em recuperação, tem vaga garantida no Hall da Fama. Acredito que ele anunciará sua aposentadoria integral das pistas ao fim desta temporada, focando exclusivamente na gestão da equipe enquanto aguarda a honraria máxima do esporte.
O Eco da História: O Primeiro Grande Evento Pós-11 de Setembro
Enquanto olhamos para o futuro e as estratégias de 2026, é impossível dissociar a NASCAR de sua profunda conexão com a identidade americana e sua capacidade de resiliência. Para entender o peso que o esporte carrega, basta voltar a um domingo específico: 23 de setembro de 2001. O Dover International Speedway abriu seus portões para a MBNA Cal Ripken Jr. 400, a primeira corrida da Cup Series realizada após os ataques terroristas de 11 de setembro.
A localização de Dover, a cerca de três horas de Nova York e duas de Washington D.C., colocou o autódromo perigosamente próximo aos locais dos atentados, conferindo uma responsabilidade incomum ao evento. Cerca de 140.000 bandeiras americanas foram distribuídas nas entradas e, com um público estimado entre 135.000 e 140.000 pessoas, aquela corrida se tornou a maior reunião de americanos em um único local desde o dia dos ataques. Não se tratava apenas de automobilismo; o evento carregava uma importância nacional.
Segurança de Guerra e Clima de União
Nos dias que antecederam a prova, a coordenação de segurança atingiu níveis inéditos. Denis McGlynn, então CEO da Dover Motorsports, relatou a colaboração com praticamente todos os níveis de aplicação da lei, incluindo FBI e ATF, com planos para conter ameaças aéreas e explosivos. Pela primeira vez na história da pista, coolers e mochilas foram proibidos nas arquibancadas, e as latas de lixo eram inspecionadas múltiplas vezes ao dia.
A transmissão da NBC refletiu a gravidade do momento. Em vez da introdução habitual, as câmeras focaram na Base Aérea de Dover, cujos voluntários, que normalmente trabalhariam na corrida, estavam ocupados com deveres militares urgentes. Nas arquibancadas, o visual tradicional das camisas de equipes deu lugar a um mar de vermelho, branco e azul. McGlynn observou que, assim que os fãs passaram pela segurança rígida, o clima mudou de tensão para uma identidade compartilhada de desafio e patriotismo.
Símbolos, Cerimônias e a Vitória de Earnhardt Jr.
As cerimônias pré-corrida foram marcadas por uma parada militar e a presença de socorristas de Nova York e Shanksville. Quando Lee Greenwood cantou “God Bless The U.S.A.”, o sentimento de ferida aberta era palpável. Durante o hino nacional, entoado por Tanya Tucker, a multidão irrompeu em gritos de “U-S-A” que duraram longos segundos após a última nota, seguidos pela soltura de pombas brancas.
Aquele foi um ano brutal para a categoria. A NASCAR já havia perdido um de seus maiores ícones, Dale Earnhardt Sr., em fevereiro, na última volta da Daytona 500. Sete meses depois, o terrorismo paralisou a competição novamente. Mike Helton, presidente da NASCAR na época, teve a difícil tarefa de decidir quando retomar as atividades, trabalhando em conjunto com agências governamentais. A vitória de Dale Earnhardt Jr. naquele dia em Dover serviu como uma catarse, unindo a nação e encerrando, de forma simbólica, um ciclo de luto que havia começado na pista e se estendido para o coração do país.