A Fórmula 1 está fervendo nos bastidores com uma movimentação pesada que pode mudar a cara do grid, e o grande articulador dessa história parece ser Christian Horner. A gigante chinesa BYD, que não faz muito tempo deixou a Tesla comendo poeira como a maior fabricante de carros elétricos do planeta, já deixou bem claro que quer desbravar a categoria máxima do automobilismo. Logo depois que Stella Li, vice-presidente da BYD, confirmou que a montadora olha com bastante carinho para um projeto na F1, a rádio paddock começou a captar os sinais de que Horner estaria costurando essa ponte através de uma série de reuniões.
O clima esquentou rápido e os primeiros rumores apontavam que a BYD queria abocanhar os 24% de participação na Alpine, fatia que hoje está nas mãos da Otro Capital. É um cenário de negociação no mínimo curioso, porque coloca na mesma mesa figurões da Renault, a Mercedes (atual fornecedora de unidades de potência da equipe francesa) e o próprio Christian Horner. Flavio Briatore, o todo-poderoso da Alpine, chegou a admitir publicamente o interesse da Mercedes e de Horner no negócio. Enquanto isso, a equipe mantém aquela clássica postura corporativa de não comentar especulações, dizendo apenas que as conversas rolam entre os atuais acionistas e quem tem interesse em entrar.
Mas a verdadeira jogada dos chineses parece ser bem mais ambiciosa do que simplesmente virar sócio minoritário de uma escuderia que já está correndo. O alvo real da BYD seria entrar com o pé na porta, fundando uma equipe do zero para fincar sua bandeira como a 12ª força do esporte. O otimismo nas conversas é palpável. Horner bateu ponto em Cannes para se encontrar com Stella Li em uma sequência de reuniões de dois dias, e a executiva teria ficado empolgadíssima com o escopo do projeto. O ex-chefão da Red Bull até marcou presença no evento ‘Cannes Night’ como convidado de honra da montadora e deu as caras na etapa da Fórmula E em Mônaco, a convite da Liberty Global.
O grande ponto de ironia em toda essa aproximação é justamente o momento de transição de identidade que a Fórmula 1 atravessa. Enquanto a BYD avança apoiada no seu DNA puramente elétrico, a categoria percebeu que estava flertando com o abismo. O regulamento de motores projetado para 2026 forçava uma divisão utópica de 50 a 50 entre a força do motor a combustão e a energia elétrica. No papel, a engenharia verde parecia um golaço. Na vida real, os dados de simulador mostraram que as equipes estavam prestes a viver um pesadelo técnico.
O que se desenhou foi um cenário bizarro onde os pilotos teriam que apelar para o tactical lifting — basicamente tirar o pé do acelerador no meio das retas para conseguir regenerar bateria suficiente para contornar a próxima curva. Imagina a cena: o fã desembolsa uma nota preta por um ingresso em Las Vegas esperando ver os caras rasgando a pista a mais de 320 km/h num combate roda a roda, mas acaba assistindo a elite do automobilismo mundial fazendo gincana de economia de energia. Faltou muito pouco para a F1 perder totalmente sua essência, mas felizmente a chefia caiu na real de que ninguém paga para ver eficiência de bateria. O público quer ver adrenalina bruta e as leis da física sendo testadas.
Para salvar a visceralidade do esporte, um acordo entre a administração e as equipes já corrigiu a rota do regulamento para a temporada de 2027. Aquela divisão engessada de meio a meio subiu no telhado e o regulamento vai pivotar para um formato 60-40, devolvendo o protagonismo para o motor a combustão. É um movimento que a BYD pode não engolir tão fácil, já que a praia deles é justamente a eletricidade, mas que era vital para a F1.
A solução técnica que encontraram é muito elegante. O V6 vai ganhar um respiro extra de 50kW (algo em torno de 67 cavalos) com um limite maior no fluxo de combustível, enquanto o ERS perde esses exatos 50kW. A cavalaria total dos carros continua absurda, mas a entrega dessa potência nas rodas muda o jogo. A pilotagem volta a ser instintiva. Quando o piloto cravar o pé no fundo, o carro vai acelerar de verdade, sem que um computador mande ele tirar o pé e ir no embalo no meio de uma reta quilométrica. A Fórmula 1 passou a última década amolecendo sua essência em nome de adequações ecológicas, e é revigorante ver o esporte dar um passo atrás em relação a esse extremismo digital para abraçar de volta a força mecânica. Como as fabricantes de motores exigem um tempo de desenvolvimento gigantesco para colocar essas unidades na pista, a virada de chave precisava acontecer agora.