O cinema tem essa capacidade bizarra de nos jogar em extremos absolutos da experiência humana. Um minuto você está no meio do fogo cruzado com criaturas inexplicáveis na Coreia do Sul e, no momento seguinte, se vê acompanhando o declínio silencioso de uma atriz pelas ruas da França. Vamos começar pela loucura pura e simples de Hope, a mais nova pedida do diretor sul-coreano Na Hong-jin. O filme é um puro suco de entretenimento gonzo, um thriller de ficção científica que bate no liquidificador um excelente trabalho digital com aquela pegada analógica de ação que a gente ama. É um espetáculo com pitadas descaradas de Spielberg, Walter Hill e de uma certa franquia cinematográfica que seria muita sacanagem eu entregar logo de cara.
A trama nos joga na cidadezinha pacata e remota de Hope, habitada basicamente por aposentados e localizada bem perto da zona desmilitarizada (DMZ) da Coreia do Sul. Uma galera que, por natureza, já está constitucionalmente vacinada contra a possibilidade de guerra e derramamento de sangue, mas que fica de queixo caído quando um animal de fazenda aparece destroçado — e não para virar comida —, vítima de uma fera não identificada.
É aí que entra o chefe de polícia Beom-seok (Hwang Jung-min), um cara com o peso do mundo nas costas. Ele chega naquele trecho isolado de campo onde a carcaça bizarramente rasgada foi deixada e começa a trocar farpas com os caçadores locais. Os caras juram de pé junto que é obra de um tigre, enquanto engolem seco as broncas do policial sobre o porte ilegal de seus rifles. O momento em que o atônito Beom-seok tira seus óculos de aviador para dar uma olhada melhor no estrago é um tremendo divisor de águas: ele nunca mais coloca os óculos no rosto. Ali, ele simplesmente joga para o alto sua frieza profissional e vira um guerreiro.
A partir desse ponto, a parada vira um pandemônio. Boa parte do filme consiste nele e em todo o resto do elenco correndo até os pulmões pedirem arrego, gritando desaforos para o alienígena e dirigindo feito loucos, com direito a uns cavalos de pau deliciosos. A obra rapidamente engata numa loucura de perseguição de carros e pancadaria com o bicho, que só dá uma respirada bem de leve depois da primeira hora alucinante de adrenalina pura, só para voltar com tudo logo em seguida. Eu até fiz uma aposta comigo mesmo sobre quando, nesses robustos 160 minutos de filme, a gente finalmente conseguiria ver o monstro de verdade, e acabei acertando na mosca.
No meio dessa confusão colossal, Beom-seok ganha o reforço da corajosa policial novata Sung-ae — vivida pela nova megaestrela Jung Ho-yeon, de Round 6 — e do explosivo Sung-ki (Zo In-sung). Aliás, o Sung-ki protagoniza a manobra mais surtada do ato final: o cara fica pendurado na traseira de uma viatura em alta velocidade com sua arma, deixando o bicho chegar perto o suficiente para levar chumbo, enquanto a Sung-ae percebe que se apaixonou perdidamente por ele (pelo Sung-ki, deixando claro, não pelo monstro).
A grande sacada do roteiro é mostrar que os monstros também têm sentimentos. A agressividade dessensibilizada daquela comunidade contra esse forasteiro existencial pode, no fim das contas, ter sido o estopim de toda a desgraça desde o início — uma bela lição que cai como uma luva para quem vive na DMZ e para o resto do mundo. Claro que o terceiro ato vai dividir opiniões sobre o que realmente está por trás dessa incursão monstruosa, deixando a porta escancarada para uma continuação de franquia, e o visual do monstro também pode dar aquele ar de déjà vu. Mas a verdade é que Hope entrega um entretenimento de altíssima qualidade, capaz de inflamar ainda mais a obsessão global pelo cinema coreano ao materializar nossos medos.
Mas a sétima arte também nos ensina que a batalha contra o que nos assombra nem sempre envolve forasteiros intergalácticos e tiros de espingarda; muitas vezes, a ameaça é invisível e o monstro está no fundo de um copo.
Mudando radicalmente de sintonia e de continente, caímos no drama francês Another Day (Garance), o mais recente trabalho da atriz que virou diretora Jeanne Herry. Como ela própria é atriz e, de quebra, filha da lenda do cinema francês Miou-Miou, Herry entende do riscado quando o assunto é atuação. Se em seus longas anteriores ela apostou em grandes elencos focados muito mais nos personagens do que em tramas complexas, aqui ela se debruça sobre uma protagonista que simplesmente não consegue largar a bebida para conseguir manter um emprego.
A talentosíssima Adèle Exarchopoulos — que já levou um prêmio César pelo filme anterior da diretora e a cobiçada Palma de Ouro por Azul é a Cor Mais Quente — entrega tudo no papel de Garance. Ela é uma alcoólatra funcional que ganha a vida atuando, ou pelo menos tenta achar trabalho quando não está completamente trêbada. A atriz francesa de 32 anos constrói de forma cativante essa mulher incapaz de chutar um vício que provavelmente vai mandá-la para o buraco mais cedo.
A obra respira uma energia caótica que grita John Cassavetes logo de cara, lembrando muito a genialidade desequilibrada de clássicos sobre alcoolismo e teatro como Uma Mulher Sob Influência e Noite de Estreia. O filme de Herry é, de certa forma, uma tentativa de cruzar essas duas pontas, capturando a dupla maldição da protagonista: ser uma bebedora descontrolada e uma artista visceral que ama os holofotes. Só que existe um teto para essa performance conceitual da diretora. O roteiro soa um tanto quanto frouxo e esparso, capengando às vezes para segurar a nossa atenção ou então pesando demais a mão no melodrama para tentar compensar a falta de ritmo. É muito mais uma crônica crua do que um drama redondinho, colado o tempo todo na figura dessa anti-heroína que é um desastre adorável. Exarchopoulos banca a personagem com aquela atitude autêntica e sem frescuras que lhe é peculiar, mas agora com taças e mais taças de vinho descendo pela garganta. Ela injeta uma boa dose de humor e certa leveza em um filme que, no fundo, precisava de uma narrativa mais amarrada, embora mereça todo o crédito por ser brutalmente honesto.
É dureza tentar a vida como atriz — “difícil, difícil, difícil!”, desabafa uma Garance com os olhos marejados para uma turma de crianças numa cena genuinamente engraçada —, e a situação desanda de vez quando você começa a embolar as falas ou a chegar atrasada nos ensaios. Isso vai virando rotina na tela: a gente assiste a ela tentando se agarrar a pontas em peças conceituais ou a papéis principais num teatro infantil itinerante. Ela dá o sangue em cena, mas invariavelmente pisa na bola toda vez que a ressaca bate forte.
Quando os colegas de elenco finalmente a colocam contra a parede sobre o alcoolismo, Garance simplesmente não quer ouvir. Qualquer ator vai te dizer que interpretar alguém bêbado de forma convincente é osso, mas Exarchopoulos não só tira isso de letra, como faz o mais difícil: interpreta alguém que jura de pés juntos que estar bêbada não é um problema, mesmo que no fundo a personagem saiba que a corda já arrebentou.
O peso da narrativa recai sobre esse saco de gatos emocional de Garance, que tenta espantar seus próprios demônios vivendo anestesiada a maior parte do tempo. Pelo caminho, ela sobrevive a alguns relacionamentos frustrados — um com um diretor de cinema encostado que parece colado no sofá, outro com uma escritora lésbica que a faz desabrochar sexualmente numa relação tão passional quanto efêmera. No meio desse furacão de instabilidade, ela mantém firmes algumas amizades que, na prática, se resumem a bater ponto em baladas e beber até apagar a memória. No fim das contas, entre os monstros literais que invadem cidades e os monstros internos que devoram o indivíduo, o cinema segue sendo o reflexo perfeito de como lidamos — aos trancos e barrancos — com a nossa própria sobrevivência.