Durante mais de duas décadas, Cuba e Venezuela construíram uma parceria sustentada por petróleo, missões sociais e cooperação política e de segurança. Nove meses depois da captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, esse modelo dá sinais claros de desgaste. A mudança aparece tanto na linguagem diplomática quanto na vida econômica cubana, hoje pressionada pela interrupção do combustível venezuelano e por um bloqueio mais rígido.
Um sinal simbólico ocorreu na Assembleia Geral das Nações Unidas. Pela primeira vez em 20 anos, Cuba não foi mencionada no discurso de um representante venezuelano no debate: a presidente interina Delcy Rodríguez falou sem citar a antiga parceira. Pouco depois da operação de janeiro, ela havia defendido o direito de Caracas de manter relações simultâneas com China, Rússia, Irã, Cuba e Estados Unidos. Agora, porém, Havana descreve a Venezuela como um país amigo, evitando o termo aliado que marcou a era de Hugo Chávez e Fidel Castro.
A relação começou a se consolidar a partir de 1999. A Venezuela fornecia petróleo em condições preferenciais, enquanto Cuba enviava profissionais de saúde, educação, cultura e esporte. Milhares de médicos participaram do programa Barrio Adentro. Ao mesmo tempo, especialistas e antigos integrantes das forças venezuelanas apontam uma presença cubana profunda em áreas de inteligência e contrainteligência, tema que durante anos foi negado oficialmente.
A operação que capturou Maduro tornou essa dimensão mais visível. Pelo menos 32 cubanos morreram, entre eles oficiais das Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior. Nos meses seguintes, fontes ouvidas por diferentes veículos relataram a retirada de agentes e médicos cubanos. Não há dados públicos completos sobre a dimensão do recuo, mas analistas consideram que a influência de Havana nos órgãos de segurança venezuelanos diminuiu de forma substancial.
O efeito econômico é mais fácil de medir. O fornecimento de petróleo venezuelano já estava suspenso desde o fim de 2025 e, após a mudança de poder em Caracas, os Estados Unidos assumiram o controle sobre a venda do produto venezuelano. Sem o combustível barato que sustentou parte de sua economia, Cuba passou a enfrentar uma combinação de apagões, falta de água, escassez de combustíveis e alta de preços.
Em setembro, autoridades americanas apreenderam 90 carregamentos de biodiesel destinados à ilha, avaliados em quase US$ 3 milhões. Washington afirmou que os contratos envolviam a empresa estatal cubana sancionada ENETEC. O ministro cubano de Energia e Minas, Vicente de la O Levy, negou qualquer contrato do governo ou de empresas estatais com a companhia e disse desconhecer os carregamentos interceptados.
Os Estados Unidos permitem desde o início do ano que exportadores enviem gasolina e diesel ao setor privado cubano, mas proíbem vendas ao governo. Segundo o ministro, o volume importado por empresas privadas não cobre sequer 3% da necessidade de combustível da ilha. Cuba e a ONU classificam as restrições americanas como contrárias ao direito internacional, enquanto Washington declara que pretende aumentar a pressão sobre o regime.
Diante da crise, Havana tenta reduzir a dependência externa. O governo afirma ter instalado 144 parques solares, com capacidade conjunta de 1.418 megawatts, garantindo uma base de geração durante o dia. A produção doméstica de petróleo permanece estável e responde por cerca de 40% da eletricidade, mas é destinada quase toda às usinas termelétricas. Fontes renováveis também foram instaladas em pequenas unidades de saúde e instituições sociais, enquanto motocicletas e triciclos elétricos se tornaram mais comuns.
Outras fontes de receita continuam cercadas de incerteza. Cuba pretende manter a produção de níquel e cobalto, minerais importantes para baterias e veículos, mas sanções, falta de peças, dificuldades de pagamento e escassez de energia impedem uma retomada rápida. A transição energética ajuda a aliviar parte do problema, mas ainda não substitui o volume de petróleo que antes vinha da Venezuela.
Apesar do afastamento, os governos evitam uma ruptura pública. Havana praticamente não critica Delcy Rodríguez e mantém a embaixada e contatos com governadores, prefeitos, parlamentares e movimentos venezuelanos. Analistas avaliam que Cuba procura preservar canais para uma eventual reaproximação, enquanto Caracas tenta equilibrar suas antigas alianças com a nova relação com Washington. A parceria já não funciona como antes, mas tampouco se transformou em hostilidade aberta: ela foi substituída por uma convivência mais cautelosa e muito menos vantajosa para os cubanos.